NY, 13 de maio de 2010.
Revirava o jornal matinal atrás de alguma notícia interessante quando cheguei à página dos obituários. Em breve, o meu estará aqui, pensei. Com um suspiro, abaixei o conjunto de folhas desorganizadas em meu colo. Foi quando percebi o vulto negro acocorado na poltrona ao lado da janela. Uma garota com seus 16 ou 17 anos, cabelos louros e ondulados, trajando um vestido de renda preto. Demorei certo tempo para perceber que do meio de suas costas, um pouco abaixo das omoplatas, nasciam duas grandes asas. Com plumas e penas negras, elas formavam um arco acima da cabeça da garota e desciam graciosamente quase até o chão.
A menina sorriu pra mim. Uma brisa passou pela janela aberta, brincando entre os cabelos dela e espalhando um aroma de lavanda pelo quarto do hospital.
- Como entrou aqui?
Ela riu.
- Geralmente, não me perguntam isso. Eu entrei pela janela, mas poderia ter entrado pela porta também, uma vez que somente você consegue me ver.
- O que?
- Deixe que eu me apresente. Meu nome é Mia. Eu sou uma mensageira da Morte e estou aqui para recolher sua alma. Você tem quinze minutos ainda, então achei que talvez pudesse dar uma passada por aqui, para conversarmos...
Eu a encarei boquiaberta.
- Estou delirando. As enfermeiras terão de diminuir a dosagem de anestésicos...
Ela riu novamente.
- Eu não sou uma ilusão.
Ela se levantou e caminhou até a cama onde eu estava.
- Meu Deus, eu não passei dois anos aqui lutando contra o câncer para morrer louca.
- Rose, você não está louca. Vai ficar ai reclamando nos seus últimos treze minutos de vida? – A garota me encarou. Delicadamente, pegou minha mão. Ela era mesmo real.
- Eu vou morrer agora? E meus filhos? Não posso ir agora, Mia. Por favor...
- Não sou eu quem dito as regras, Rose. Eu apenas as cumpro. Sou como aqueles caras que cobram dívidas bancárias. Você não deve nada a mim, mas sou eu quem estou te cobrando. É mais ou menos assim.
- A vida é injusta.
Mia riu delicadamente.
- Os humanos acham que a vida é injusta porque ainda não conheceram a morte. Você sabe o que acontece às pessoas que tiram suas próprias vidas, Rose? Elas são punidas. Passam a ter de tirar a vida de outras pessoas. Viram mensageiros da Morte, como eu.
Encarei a menina. Olhei suas mãos, apoiadas na cama. Havia cicatrizes profundas que se erguiam dos pulsos até os cotovelos, na parte interna do braço.
- O que houve com você?
A menina abaixou os olhos e suspirou:
- Minha mãe era uma garota que cresceu numa fazenda e fugiu para a cidade aos 21 anos, e meu pai era um alcoólatra violento. Um dia, ele voltou pra casa bêbado. Eu tinha seis anos e minha mãe tentou me defender dele. Acabou levando uma garrafada na nuca e morreu. Depois disso, passei o resto dos meus dias trancada em casa. De dia, meu pai saía para beber. Quando voltava, abusava de mim. Então, aos 16, resolvi dar um basta nisso. Alguns cacos do espelho quebrado do banheiro foram suficientes para me livrar daquela vida miserável. Quando acordei, estava assim. – Ela finalizou, abrindo levemente as asas. – A morte é muito mais injusta do que a vida, Rose.
Uma onde de tristeza me invadiu: eu não iria mais ver meus filhos, minha casa, nem o pessoal do trabalho. Não poderia levar mais meu cachorro para passear, ou ver meus futuros netos. Ao erguer a cabeça, percebi que duas lágrimas escaparam dos meus olhos e desceram pelo rosto.
- Não é tão ruim assim, Rose. Todos nós morremos. Quero dizer, todos os humanos. Você voltará a ver seus parentes. E poderá reencontrar os que já se foram. Ficaria feliz se fosse você. Suas dores sumirão e você irá para um lugar melhor do que este.
Limpei as lágrimas com a palma da mão.
- Rose, faltam cinco minutos e eu queria lhe pedir um favor. Sei que você é uma pessoa boa e vai lá pra cima. Se encontrar minha mãe, diga a ela que eu a amo muito. Você vai saber quem é, pois eu sou muito parecida com ela.
Eu sorri para Mia. Uma idéia me passou pela cabeça.
- Chegou a hora, querida. Não tenha medo. Apenas relaxe, não vai doer nada. Eu prometo.
Ela passou seus braços pelo meu pescoço e minhas pernas. Eu me senti leve, como se pudesse flutuar. As dores e a exaustão sumiram na mesma hora. Encostei minha cabeça no seu peito e foi estranho não ouvir o bater de um coração. Olhei sobre meus ombros e vi meu corpo, com a cabeça meio inclinada e a mão direita caída para fora da cama. O aparelho que mede os batimentos cardíacos produzia um som contínuo, numa linha reta, indicando que o coração já não pulsava mais.
- Mia – eu disse, com uma voz fraca – eu acho que ser uma mensageira da Morte não é uma punição, e sim uma segunda chance. Você ainda está entre os humanos, ajudando-nos a ir para algum lugar. Logo você estará com sua mãe, querida. Tenho certeza.
Ela sorriu agradecida para mim e eu adormeci.

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